Situações de valor restritamente fictícios,porém dotados de grandes propriedades factuais... :O)
domingo, 16 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Semelhanças...
Numa das noitadas de
conversa e cerveja do 2002, Waly, Luis Tenório (um amigo de Dedé
desde Salvador que, mais tarde, se tornaria um renomado psicanalista)
e eu ficamos acordados até o dia nascer e continuamos falando sem
parar até quando o sol já ia bem alto.
De repente, percebemos um alarido vindo da rua. Olhando do
nosso vigésimo andar, vimos tratar-se de uma passeata de protesto
estudantil contra a ditadura. Decidi descer para ver de perto. Waly e
Tenório me acompanharam. O cortejo seguia pela avenida Ipiranga e,
ao alcançar a praça da República, foi interceptado por
destacamentos policiais em imensos carros blindados - os chamados
"brucutus" - e dispersou-se numa correria. Muitos estudantes eram
alcançados por policiais, que os espancavam. Meus dois amigos
seguiam a meu lado calados e tensos. Eu estava usando um casaco
militar europeu antigo (um "casaco de general") sobre o torso nu, jeans,
sandálias e um colar índio feito de dentes grandes de animal. Meu
cabelo estava enorme e emaranhado, indo alto acima da cabeça e
quase chegando aos ombros. Minha figura era surpreendente para a
hora e o local (os homens de cabelos muito longos ainda eram raros) e
se mostrava mesmo assustadora para a maioria das pessoas de quem
me aproximava. Eu interpelava os passantes, protestando contra sua
indiferença medrosa (e, quem sabe?, seu apoio íntimo) em face da
brutalidade policial. Homens e mulheres apressados tinham medo dos
manifestantes, dos soldados e de mim. Eu estava seguro de que,
naquela situação, ninguém me tocaria um dedo. Sentia-me possuído
por uma ira santa. Na verdade, as pessoas não saberiam como situar
essa estranha aparição em meio à instabilidade produzida pelo
confronto entre estudantes e militares. Ninguém me enfrentaria
absolutamente naquela circunstância: todos me ouviam com o ar
assustado de quem está disposto a engolir qualquer desaforo para
safar-se. E desaforos era o que ouviam. Por outro lado, os soldados
dificilmente focariam sua atenção em mim: eu andava em sentido
contrário aos estudantes fugitivos, na verdade tangenciando o olho do
furacão, e minha aparência não seria computada como sendo a de
um dos manifestantes. Eu falava alto e exaltadamente, mas nenhum
soldado se aproximaria de mim o suficiente para me ouvir. Voltei para
casa ainda ralhando com os passantes, enquanto os grupos em
confronto se dispersavam - não sem que o brucutu levasse alguns
presos. Eu estava consciente de estar encenando um happening. Era
uma performance extravagante e séria que se dava à luz do sol.
Sempre que leio comentários a respeito do narcisismo dos manifestantes
do Maio francês, do caráter mais teatral do que político daquelas
manifestações, penso em como tinha sido afinal de contas coerente
que eu tivesse aceito a sugestão de Guilherme de fazer de "É proibido
proibir" uma canção. Mas nessa estranha descida à rua, eu me sabia
um artista realizando uma peça improvisada de teatro político. De, com
licença da palavra, poesia. Eu era o tropicalista, aquele que está livre
de amarras políticas tradicionais e por isso pode reagir contra a
opressão e a estreiteza com gestos límpidos e criadores. Narciso? Eu me
achava nesse momento necessariamente acima de Chico Buarque ou
Edu Lobo, de qualquer um dos meus colegas tidos como grandes e
profundos.
CAETANO VELOSO, In Verdade tropical.
conversa e cerveja do 2002, Waly, Luis Tenório (um amigo de Dedé
desde Salvador que, mais tarde, se tornaria um renomado psicanalista)
e eu ficamos acordados até o dia nascer e continuamos falando sem
parar até quando o sol já ia bem alto.
De repente, percebemos um alarido vindo da rua. Olhando do
nosso vigésimo andar, vimos tratar-se de uma passeata de protesto
estudantil contra a ditadura. Decidi descer para ver de perto. Waly e
Tenório me acompanharam. O cortejo seguia pela avenida Ipiranga e,
ao alcançar a praça da República, foi interceptado por
destacamentos policiais em imensos carros blindados - os chamados
"brucutus" - e dispersou-se numa correria. Muitos estudantes eram
alcançados por policiais, que os espancavam. Meus dois amigos
seguiam a meu lado calados e tensos. Eu estava usando um casaco
militar europeu antigo (um "casaco de general") sobre o torso nu, jeans,
sandálias e um colar índio feito de dentes grandes de animal. Meu
cabelo estava enorme e emaranhado, indo alto acima da cabeça e
quase chegando aos ombros. Minha figura era surpreendente para a
hora e o local (os homens de cabelos muito longos ainda eram raros) e
se mostrava mesmo assustadora para a maioria das pessoas de quem
me aproximava. Eu interpelava os passantes, protestando contra sua
indiferença medrosa (e, quem sabe?, seu apoio íntimo) em face da
brutalidade policial. Homens e mulheres apressados tinham medo dos
manifestantes, dos soldados e de mim. Eu estava seguro de que,
naquela situação, ninguém me tocaria um dedo. Sentia-me possuído
por uma ira santa. Na verdade, as pessoas não saberiam como situar
essa estranha aparição em meio à instabilidade produzida pelo
confronto entre estudantes e militares. Ninguém me enfrentaria
absolutamente naquela circunstância: todos me ouviam com o ar
assustado de quem está disposto a engolir qualquer desaforo para
safar-se. E desaforos era o que ouviam. Por outro lado, os soldados
dificilmente focariam sua atenção em mim: eu andava em sentido
contrário aos estudantes fugitivos, na verdade tangenciando o olho do
furacão, e minha aparência não seria computada como sendo a de
um dos manifestantes. Eu falava alto e exaltadamente, mas nenhum
soldado se aproximaria de mim o suficiente para me ouvir. Voltei para
casa ainda ralhando com os passantes, enquanto os grupos em
confronto se dispersavam - não sem que o brucutu levasse alguns
presos. Eu estava consciente de estar encenando um happening. Era
uma performance extravagante e séria que se dava à luz do sol.
Sempre que leio comentários a respeito do narcisismo dos manifestantes
do Maio francês, do caráter mais teatral do que político daquelas
manifestações, penso em como tinha sido afinal de contas coerente
que eu tivesse aceito a sugestão de Guilherme de fazer de "É proibido
proibir" uma canção. Mas nessa estranha descida à rua, eu me sabia
um artista realizando uma peça improvisada de teatro político. De, com
licença da palavra, poesia. Eu era o tropicalista, aquele que está livre
de amarras políticas tradicionais e por isso pode reagir contra a
opressão e a estreiteza com gestos límpidos e criadores. Narciso? Eu me
achava nesse momento necessariamente acima de Chico Buarque ou
Edu Lobo, de qualquer um dos meus colegas tidos como grandes e
profundos.
CAETANO VELOSO, In Verdade tropical.
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