Foi com grande ansiedade que aguardei que chegasse o dia 22 de março, visto que apesar de menos um mês em Ouro Preto, eu já não aguentava mais o ar pesado que enche os pulmões da gente de neblina! E já estava muito cansado da rotina CASA> CAMPUS> CASA> PRAÇA> CASA> CAMPUS> CASA> RUA DIREITA> CASA> CAMPUS... e assim por diante, parece até que a cidade inteira ou é campus ou é casa! Voltando a segunda-feira dia 22, o fato motiz da ansiedade é que iríamos à Belo Horizonte. Nada de Campus por umas horas! Iríamos assistir o espetáculo Cara Preta, pelo qual nossa professora Letícia de Dramaturgia B fora a dramaturga.
A mudança de ambiente por algumas horas foi bom, porém o que ficasse realmente marcado desse dia fosse o fato que eu não esperava que o espetáculo me comovesse a tal ponto como o fez. Não que eu esperasse uma interpretação mediana e uma contrução medíocre de palavras mal selecionadas. Mas agora, vendo a situação em que eu me encontrava posso compreender que seria normal eu esperar ver mais alguma coisa pelo qual eu não conseguisse ter sequer senso crítico, por não entender nada. No semestre passado por exemplo, eu fui a Belo Horizonte assistir a um espetáculo também de um professor e o passeio foi bom. O espetáculo sabe-se lá.
Eis o “ponto do doce”. Há muito tempo tenho procurado alguma obra artística que ao invés de encher minha cabeça de caraminholas más e improdutivas, a enchesse de caraminholas boas e criativas. Já havia me acomodado, estava sentado numa cadeira de pregos com um saco de cimento no colo, porém conformado e tentado me comfortar. Acomodação besta, eu sei, mas é que as vezes é melhor fingir- se adequar a esse sei lá oquê acadêmico, que dá um comichaõ na gente. Ô vontade de ser grosseiro e mandar todo mundo pras cucuias com todos os “não sei onde estou, pra onde vou”, “tiremos as roupas e sentemos no tapete voador à caminho do terra dos sem-vergonha”, “Enfia o canudo no meu cu que eu sei remexer”. Á MERDA! Quero fazer o que quero. Quero fazer o que minha mãe acha que estou fazendo aqui: estudando TEATRO! O que vier de agregador a isso será bem aproveitado, obrigado. Não adianta me chamar de anti-social, CDF, ou panelerio!
Voltando ao Cara Preta, após esse desabafo, quero ressaltar o qunato a linguagem da oratória é interessante, e quanto o ator é bom em entregá-la ao público! Marido da Letícia, hein, danada! Apesar de ter visto outros espetáculos com a temática da violência, fiquei encantado com a forma sedutora que a cia. Maldita! -E que nome!- usou e abusou, ao invés de ruminda e vomitada na minha cara, a violência me acolheiu, me deu assento, cerveja e prosa. Quanta hospitalidade. Entretanto é engraçado o fato de se sentir comparsa daquele negócio, dá repugnância só de pensar que a minha moral poderia estar abalada naquele momento de jogo psicológico em que o Lenine jogava com a gente, assim como o fauno do último conto que embebeda o homem pra poder caçar e matar depois. A Hermafrodita nos seduz, o Merda aprisiona, o Fauno brinca e liquida a todos com seu desfecho antagônico. “Já comeu carne de veado?” Tudo como a própria canção, boi boi boi... boi da cara preta, pega esse menino... Como faz-se confortavel com algo que amedronta, ainda mais tratado tão sutilmente.
“Vai boi, pega o que é seu! Casa é direito de todos e ninguém disse que você não pode ter a sua! Okey?” Bem... O boi é de uma infantilidade medonha, a forma em que se encontra seu status impediu-me de julgar as atitudes desse pobre mendigo inválido, que não consegue nem se manter de pé. Mas primeiro alguém conta pra ele que é errado matar, roubar e deve-se ter sobriedade nas atitudes, que apesar de não haver resquício, há uma certa lógica fatorial levando em conta suas circunstâncias, e não impede de haver carisma ou até pesar dessa personagem.
Fatalmente esse tipo de espetáculo me agrada em vários aspectos, e esse dia 22 vai ficar guardado e documentado. Ficou certo que essas horas fora de Ouro Preto que foram mais longas do que esperado, em que houve até um segmento no caminho de volta (fica pra um próximo texto, quem sabe Cara Preta II) valeu mais a pena do que esperado.