quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Nova Barbie Ensandecida

Do alto do seu universo particular, Mary especula a chegada de um novo ser.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

LAPSO DE REALIDADE

[...] Ele se levanta e vai em direção a porta em que todos haviam saído.

Argemon: (num sobressalto) aonde você vai?

(nos olhos de Argemon a certeza de ter chateado Ele com seu atrevimento, Ele se iria para sempre)

Ele: Vou encostar a porta. (olhando Argemon por cima do seu próprio ombro. Sorri) Eu já me decidi!

(Engolindo em seco, Argemon sente todo seu sangue ficando frio)[...]




*o estardalhar de cacos de coração pelo (e por muito) tempo enrijecido.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Carta ao filho que se foi.

Ouro Preto,13 de outubro de 2010.

Filho amado

Faz um tempo em que me pego aflita a imaginar o porquê de seu silêncio, e a cada carta sua não recebida é mais uma certeza de que estás mal. Acredito que eu fui um dos motivos de sua ida, mas ainda assim quero que saiba que o que fiz foi sempre para seu bem.
Eu sempre quis mais que tudo te proteger. Você sabe que eu nunca iria deixar eles tocarem em um fio de cabelo seu, mesmo que usassem de força contra mim, seria força contra força, a minha contra a deles, e você sabe, filhinho que a força de sua mãe é como de leoa.
Mas mesmo assim você foi embora. Por favor mesmo que não volte, me responda, não me deixe a sós com minhas suposições... Você sabe que minha maior inimiga sempre fui eu mesma, defeito de família, sua avó também era assim, e só de cogitar a idéia de faltar alguma certeza sobre um assunto familiar dava cada pití, você se lembra?
Eu sei que nunca tive tanta certeza. Nem mesmo compreensão, o que as vezes deixava de lado a confiança. Mas você nunca pôde se queixar de inegligência, eu te mantive longe deles sempre que pude, na escola, na rua, e até mesmo dos que tinham na família, que apercebiam do seu jeito diferente.
Foi cuidando de ti que descobri, embora tarde que um dia haverá fraternidade. Eu acredito que eles um dia ainda te amarão, apesar de não te entenderem, sobretudo se não lhe compreenderem. Se hoje eles te batem, te humilham, te seduzem, te apedrejam, te usam e até mesmo se te matam, meu anjinho, é porque não te compreendem e não te aceitam. Mas também como amariam? Você sempre foi o mais bonito, o mais sensível e o mais inteligente.
Te amo e quero muito que você volte para casa. Para sua casa, do tamanho do meu coração, aqui pertinho onde possam bater juntos o seu e o meu, tranqüilos e de bem novamente. Nada nunca será como antes.
Donde você está, eles te observam, vigiam, eu sei, e Deus não permita que esteja tão vulnerável que eles possam enfim te pegar. Você não é como os outros que ficam por aí, você tem pelos seus e eu não deixo!
Toda vez que passo em frente ao seu antigo quarto, me lembro de você, sentado à cama me esperando te mandar fazer o dever... bate-me profunda angústia. Como eu queria novamente mandar em você. Daí não teria esforço em escrever cartas e esperar respostas, não teria que insistir te pedir para voltar, mas filho é como passarinho como dizem os poetas, logo que crescem querem alçar voo e construir seu próprio ninho. Não me importa que você construa seu ninho com outro passarinho e que não me dê netos passarinhos. Não mais.
Mas ainda é cedo, você ainda não aprendeu a voar sozinho. E eles estão por toda parte, esses filhos sem mãe, com suas insígnias e frases e blasfêmias, são uns mentirosos.
Volte filhinho, meu! Me deixe novamente feliz com sua presença, eu preciso do seu precisar de mim. Eu não tenho mais quem precise de mim senão você. Já não sou nada, e por favor me faça por um momento voltar a ser. Te juro que nunca mais serei como um deles. Em nenhuma maneira. Nunca.

Beijos, de sua Mamãe Querida.

domingo, 16 de maio de 2010

Realmente, a distãncia entre prática e teoria pode gerar vários quiprocós! Mas essa relação de desvalorização do ato artístico no âmbito acadêmico já deu o que falar, e eu já estou de saco cheio!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Semelhanças...

Numa das noitadas de
conversa e cerveja do 2002, Waly, Luis Tenório (um amigo de Dedé
desde Salvador que, mais tarde, se tornaria um renomado psicanalista)
e eu ficamos acordados até o dia nascer e continuamos falando sem
parar até quando o sol já ia bem alto.
De repente, percebemos um alarido vindo da rua. Olhando do
nosso vigésimo andar, vimos tratar-se de uma passeata de protesto
estudantil contra a ditadura. Decidi descer para ver de perto. Waly e
Tenório me acompanharam. O cortejo seguia pela avenida Ipiranga e,
ao alcançar a praça da República, foi interceptado por
destacamentos policiais em imensos carros blindados - os chamados
"brucutus" - e dispersou-se numa correria. Muitos estudantes eram
alcançados por policiais, que os espancavam. Meus dois amigos
seguiam a meu lado calados e tensos. Eu estava usando um casaco
militar europeu antigo (um "casaco de general") sobre o torso nu, jeans,
sandálias e um colar índio feito de dentes grandes de animal. Meu
cabelo estava enorme e emaranhado, indo alto acima da cabeça e
quase chegando aos ombros. Minha figura era surpreendente para a
hora e o local (os homens de cabelos muito longos ainda eram raros) e
se mostrava mesmo assustadora para a maioria das pessoas de quem
me aproximava. Eu interpelava os passantes, protestando contra sua
indiferença medrosa (e, quem sabe?, seu apoio íntimo) em face da
brutalidade policial. Homens e mulheres apressados tinham medo dos
manifestantes, dos soldados e de mim. Eu estava seguro de que,
naquela situação, ninguém me tocaria um dedo. Sentia-me possuído
por uma ira santa. Na verdade, as pessoas não saberiam como situar
essa estranha aparição em meio à instabilidade produzida pelo
confronto entre estudantes e militares. Ninguém me enfrentaria
absolutamente naquela circunstância: todos me ouviam com o ar
assustado de quem está disposto a engolir qualquer desaforo para
safar-se. E desaforos era o que ouviam. Por outro lado, os soldados
dificilmente focariam sua atenção em mim: eu andava em sentido
contrário aos estudantes fugitivos, na verdade tangenciando o olho do
furacão, e minha aparência não seria computada como sendo a de
um dos manifestantes. Eu falava alto e exaltadamente, mas nenhum
soldado se aproximaria de mim o suficiente para me ouvir. Voltei para
casa ainda ralhando com os passantes, enquanto os grupos em
confronto se dispersavam - não sem que o brucutu levasse alguns
presos. Eu estava consciente de estar encenando um happening. Era
uma performance extravagante e séria que se dava à luz do sol.
Sempre que leio comentários a respeito do narcisismo dos manifestantes
do Maio francês, do caráter mais teatral do que político daquelas
manifestações, penso em como tinha sido afinal de contas coerente
que eu tivesse aceito a sugestão de Guilherme de fazer de "É proibido
proibir" uma canção. Mas nessa estranha descida à rua, eu me sabia
um artista realizando uma peça improvisada de teatro político. De, com
licença da palavra, poesia. Eu era o tropicalista, aquele que está livre
de amarras políticas tradicionais e por isso pode reagir contra a
opressão e a estreiteza com gestos límpidos e criadores. Narciso? Eu me
achava nesse momento necessariamente acima de Chico Buarque ou
Edu Lobo, de qualquer um dos meus colegas tidos como grandes e
profundos.

CAETANO VELOSO, In Verdade tropical.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Cara Preta

Foi com grande ansiedade que aguardei que chegasse o dia 22 de março, visto que apesar de menos um mês em Ouro Preto, eu já não aguentava mais o ar pesado que enche os pulmões da gente de neblina! E já estava muito cansado da rotina CASA> CAMPUS> CASA> PRAÇA> CASA> CAMPUS> CASA> RUA DIREITA> CASA> CAMPUS... e assim por diante, parece até que a cidade inteira ou é campus ou é casa! Voltando a segunda-feira dia 22, o fato motiz da ansiedade é que iríamos à Belo Horizonte. Nada de Campus por umas horas! Iríamos assistir o espetáculo Cara Preta, pelo qual nossa professora Letícia de Dramaturgia B fora a dramaturga.
A mudança de ambiente por algumas horas foi bom, porém o que ficasse realmente marcado desse dia fosse o fato que eu não esperava que o espetáculo me comovesse a tal ponto como o fez. Não que eu esperasse uma interpretação mediana e uma contrução medíocre de palavras mal selecionadas. Mas agora, vendo a situação em que eu me encontrava posso compreender que seria normal eu esperar ver mais alguma coisa pelo qual eu não conseguisse ter sequer senso crítico, por não entender nada. No semestre passado por exemplo, eu fui a Belo Horizonte assistir a um espetáculo também de um professor e o passeio foi bom. O espetáculo sabe-se lá.
Eis o “ponto do doce”. Há muito tempo tenho procurado alguma obra artística que ao invés de encher minha cabeça de caraminholas más e improdutivas, a enchesse de caraminholas boas e criativas. Já havia me acomodado, estava sentado numa cadeira de pregos com um saco de cimento no colo, porém conformado e tentado me comfortar. Acomodação besta, eu sei, mas é que as vezes é melhor fingir- se adequar a esse sei lá oquê acadêmico, que dá um comichaõ na gente. Ô vontade de ser grosseiro e mandar todo mundo pras cucuias com todos os “não sei onde estou, pra onde vou”, “tiremos as roupas e sentemos no tapete voador à caminho do terra dos sem-vergonha”, “Enfia o canudo no meu cu que eu sei remexer”. Á MERDA! Quero fazer o que quero. Quero fazer o que minha mãe acha que estou fazendo aqui: estudando TEATRO! O que vier de agregador a isso será bem aproveitado, obrigado. Não adianta me chamar de anti-social, CDF, ou panelerio!
Voltando ao Cara Preta, após esse desabafo, quero ressaltar o qunato a linguagem da oratória é interessante, e quanto o ator é bom em entregá-la ao público! Marido da Letícia, hein, danada! Apesar de ter visto outros espetáculos com a temática da violência, fiquei encantado com a forma sedutora que a cia. Maldita! -E que nome!- usou e abusou, ao invés de ruminda e vomitada na minha cara, a violência me acolheiu, me deu assento, cerveja e prosa. Quanta hospitalidade. Entretanto é engraçado o fato de se sentir comparsa daquele negócio, dá repugnância só de pensar que a minha moral poderia estar abalada naquele momento de jogo psicológico em que o Lenine jogava com a gente, assim como o fauno do último conto que embebeda o homem pra poder caçar e matar depois. A Hermafrodita nos seduz, o Merda aprisiona, o Fauno brinca e liquida a todos com seu desfecho antagônico. “Já comeu carne de veado?” Tudo como a própria canção, boi boi boi... boi da cara preta, pega esse menino... Como faz-se confortavel com algo que amedronta, ainda mais tratado tão sutilmente.
“Vai boi, pega o que é seu! Casa é direito de todos e ninguém disse que você não pode ter a sua! Okey?” Bem... O boi é de uma infantilidade medonha, a forma em que se encontra seu status impediu-me de julgar as atitudes desse pobre mendigo inválido, que não consegue nem se manter de pé. Mas primeiro alguém conta pra ele que é errado matar, roubar e deve-se ter sobriedade nas atitudes, que apesar de não haver resquício, há uma certa lógica fatorial levando em conta suas circunstâncias, e não impede de haver carisma ou até pesar dessa personagem.
Fatalmente esse tipo de espetáculo me agrada em vários aspectos, e esse dia 22 vai ficar guardado e documentado. Ficou certo que essas horas fora de Ouro Preto que foram mais longas do que esperado, em que houve até um segmento no caminho de volta (fica pra um próximo texto, quem sabe Cara Preta II) valeu mais a pena do que esperado.